Maputo, Janeiro de 2026 — Chuvas intensas e cheias severas desde meados de Dezembro de 2025 afectaram cerca de 1,3 milhão de pessoas na África Austral, destruindo habitações e infraestruturas críticas, interrompendo o acesso a serviços de saúde e aumentando o risco de doenças transmitidas pela água e por vetores. De acordo com avaliações preliminares da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente metade das pessoas afectadas encontra-se em Moçambique. As cheias também impactaram áreas do Malawi, África do Sul, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabwe.
Perante a magnitude e o impacto da crise, a OMS classificou a situação como uma Emergência de Grau 2, o que permite a mobilização acelerada de recursos humanos e financeiros, o reforço da coordenação operacional e uma resposta intensificada para apoiar o Governo na proteção da saúde das populações afectadas.
As necessidades humanitárias urgentes incluem abrigo, acesso a água potável segura e serviços de saúde essenciais. Em locaisde acolhimento para pessoas deslocadas, a sobrelotação, o acesso limitado a saneamento e higiene e a escassez de água segura elevam o risco de diarreia aquosa aguda e cólera. Embora Moçambique já enfrentasse um surto de cólera nas regiões norte e centro, até ao momento não foram reportados casos nas zonas afectadas pelas cheias; a vigilância epidemiológica foi, contudo, reforçada.
O deslocamento generalizado e as fragilidades nas infraestruturas de água, saneamento e higiene aumentam ainda os riscos de infecções respiratórias agudas, pneumonia e doenças de pele. Interrupções nos serviços de saúde de rotina podem agravar a morbimortalidade materna e neonatal, além de afectar o tratamento do HIV e da tuberculose, a imunização e os cuidados para doenças não transmissíveis.
A OMS, em coordenação com o Governo e parceiros, está a apoiar a resposta de emergência, incluindo:
- Pré-posicionamento de insumos essenciais, com foco em cólera e outras prioridades de saúde;
- Coordenação da resposta em saúde a nível nacional, provincial e distrital;
- Reforço da vigilância activa, prevenção e controlo de doenças.
“Estamos a trabalhar de perto com os governos e parceiros para garantir uma resposta atempada e eficaz a este desastre devastador. A nossa prioridade imediata é prevenir surtos, manter serviços de saúde essenciais, salvar vidas e proteger as comunidades mais vulneráveis”, afirmou Dr. Mohamed Janabi, Diretor Regional da OMS para a África.
Desde Agosto de 2024, a OMS reforçou o monitoramento de riscos e os sistemas de alerta precoce com enfoque em Gaza, Tete e Maputo. Oficiais de vigilância receberam formação sobre como identificar, registar e comunicar rapidamente doenças e surtos, permitindo uma resposta mais rápida para proteger as comunidades e 166 dispositivos tablets foram distribuídos para recolha e transmissão de dados em tempo real.
Actualmente, as medidas prioritárias imediatas incluem a instalação de clínicas móveis nas áreas afectadas, a garantia de cuidados obstétricos e neonatais de emergência nos centros de acomodação e a intensificação da prevenção da diarreia e da cólera, juntamente com o reforço de WASH e da vigilância de doenças.
A OMS apoia activamente a coordenação da resposta liderada pelo Governo, participando em plataformas nacionais e subnacionais nas províncias mais afectadas (Gaza, Província de Maputo e Cidade de Maputo). Face à gravidade da situação em Gaza, a OMS destacou dois consultores para o terreno, com o objetivo de reforçar a coordenação com os parceiros, apoiar as atividades nos centros de acomodação e monitorar as tendências epidemiológicas.
Paralelamente, um Coordenador Médico, integrado numa Equipa Médica de Emergência interagências, foi mobilizado internamente a partir de Genebra para reforçar a capacidade de resposta no terreno, apoiar a coordenação clínica e assegurar a qualidade e a continuidade dos cuidados de saúde prestados às populações afectadas.
A OMS participa igualmente em reuniões diárias de coordenação, contribui para o Boletim Diário de Resposta à Emergência do MISAU e presta orientação técnica contínua para garantir uma resposta eficaz, coerente e alinhada em todos os níveis.
A escala da emergência exige financiamento imediato e flexível para garantir a continuidade dos serviços de saúde essenciais e prevenir perdas de vidas. As prioridades incluem recursos humanos críticos para a resposta, apoio psicossocial, reforço de WASH, prevenção e controlo da malária, resposta móvel de saúde, suprimentos essenciais (incluindo kits de cólera) e custos logísticos e operacionais.
Sem financiamento atempado, capacidades críticas de resposta serão reduzidas, aumentando o risco de surtos e de mortalidade evitável. O apoio imediato dos doadores é essencial para sustentar uma resposta coordenada, liderada pelo Governo, e proteger as populações mais vulneráveis.
Nas zonas inundadas, a vigilância epidemiológica funciona com recolha diária e análise regular de dados, permitindo a detecção precoce de alterações e uma resposta rápida para limitar a transmissão de doenças.
